Síndrome do canal cárpico

O que é

sindrome tunel carpico - figura1. A síndrome do túnel do cárpico resulta da compressão do nervo mediano na face palmar do punho e é uma causa frequente  de adormecimento, sensação de formigueiro e de dor na mão. É mais comum no sexo feminino.

O túnel do carpo é um pequeno espaço, na face anterior do punho, sendo os seus limites formados  posterior e lateralmente pelos ossos do carpo e anteriormente pelo ligamento transverso do carpo.

O nervo mediano responsável pela sensibilidade da face anterior dos três dedos laterais ( polegar indicador médio e metade lateral do anelar) e pela inervação da muscutatura tenar, entra na mão através desta estrutura.

Causas

Ocorre quando os tecidos envolventes dos tendões flexores (membrana sinovial) do punho e dedos da mão incham e aumentam pressão sobre o nervo mediano, causando perturbações no seu suprimento sanguíneo.

Pode também surgir após fracturas ou outras lesões traumáticas do punho.
 
Múltiplos factores podem contribuir para o desenvolvimento desta patologia:

  • Hereditariedade é considerado o factor mais importante. Parece haver uma associação entre a dimensão do canal cárpico e factores hereditários
  • O uso de mão prolongado da mão em actividades repetitivas
  • Alterações hormonais relacionadas com a gravidez
  • Idade: a doença ocorre mais frequentemente em pessoas idosas
  • Algumas doenças como diabetes, artrite reumatóide, e patologia tiroidea

Habitualmente não existe uma causa única.

Quadro clínico

Os sintomas mais comuns da síndrome do túnel do carpo incluem:

  • Sensação de adormecimento, formigueiro e dor na mão
  • Sensação de choque eléctrico nos dedos
  • Sensações de desconforto que atinge proximalmente o membro superior (podendo inclusive ser referida até ao ombro).

O quadro clínico desenvolve-se habitualmente de forma gradual sem uma causa desencadeante aparente. Na maioria das pessoas, os sintomas são mais graves no lado externo da mão.

Os sintomas podem ocorrer em qualquer altura embora sejam referidos como mais frequentes e intensos durante a noite (acordam com frequência o paciente) ou quando acordam de manhã. Conversas prolongadas ao telefone, condução automóvel prolongada ou o facto de segurar um livro ou jornal durante a leitura são algumas das actividades referidas como desencadeantes dos sintomas.

Com a evolução do quadro, os sintomas que numa fase inicial eram discretos e intermitentes, tornam-se mais fortes e permanentes, referindo-se por vezes diminuição da força na mão, dificuldade em efectuar movimentos finos (escrever ou apertar botões por exemplo) ou segurar objectos (deixam-nos cair com frequência). Em casos mais avançados é evidente a atrofia muscular na eminência tenar (região externa da face palmar da mão – figura 1)

Diagnóstico

Exame físico

Avaliar musculatura da eminência tenar.
Avaliar sensibilidade digital.
Verificar a reação à percussão da face anterior do punho. O desencadear de formigueiro com irradiação para os dedos, SINAL DE TINEL POSITIVO indicia sofrimento do nervo mediano.
O aparecimento de adormecimento ou formigueiro com a flexão do punho, SINAL DE PHALEN POSITIVO ou com a compressão do canal cárpico, TESTE DA COMPRESSÃO POSITIVO, são outros sinais sugestivos de compressão do nervo mediano no canal cárpico.

Exames complementares de diagnóstico

Os exames complementares de diagnóstico tem como objectivo confirmar ou não a suspeita clínica, tentar esclarecer a etiologia do quadro e eventualmente detectar  outras patologias que possam ser responsáveis pelas alterações encontradas.

Os estudos radiológicos tem utilidade para esclarecer a causa de eventuais queixas dolorosas que poderão estar relacionadas com alterações locais (nomeadamente pós traumáticas ou degenerativas).

Estudos electrofisiológicos (electromiografia), poderão confirmar o diagnóstico de sofrimento do mediano no canal cárpico, mas poderão também revestir-se de capital importância na detecção de outras patologias que poderão estar presentes e ser confundidas com o síndrome do canal cárpico (sofrimento do nervo num nível mais proximal, radiculopatia cervical ou polineuropatia por exemplo).

Em casos raros (por exemplo na suspeita da existência de tumor nervoso), poderá estar indicada a realização de uma RM.

Tratamentos

Tratamento conservador

Se não for de alguma forma tratado, o síndrome do canal cárpico ir-se-á agravando progressivamente (a velocidade da evolução é de todo imprevisível).

Nas fases iniciais a medicação com anti-inflamatórios, o uso de tala nocturnas ou durante actividades mais extenuantes, a modificação da actividade (nomeadamente evitando tarefas que agravam o quadro quando tal é possível), poderão obter algum alivio na sintomatologia.

A infiltração local com corticóide poderá revestir-se de alguma utilidade (embora a possibilidade de insucesso seja grande).

Tratamento cirúrgico

O tratamento cirúrgico estará indicado, nos casos em que o tratamento conservador não obtenha um alivio do quadro sintomático que permita ao paciente manter uma qualidade de vida satisfatória.

Nos caos mais graves, a possibilidade de tratamento cirúrgico deverá ser ponderada mais precocemente, não só por não ser expectável uma melhoria significativa com o tratamento conservador, mas também para tentar evitar a evolução para um quadro irreversível de alterações da sensibilidade e de perda de massa muscular.

sindrome tunel carpico - figura2. A cirurgia é habitualmente realizada em regime ambulatório, podendo ter alta poucas horas após a intervenção (dependente da técnica anestésica utilizada).

O tratamento consiste na secção do ligamento transverso do carpo, com o objectivo de aumentar o espaço disponível para as estruturas que atravessam o canal cárpico e diminuir a possibilidade de compressão do nervo mediano. Poderá ser realizada por via aberta (com uma incisão cutânea de aproximadamente 3 cm – Figura 2), ou por via endoscópica.

De acordo com os estudos actualmente disponíveis o resultado final é semelhante, independentemente da técnica utilizada (sendo a técnica endoscópica mais dispendiosa).

Pós operatório

A sutura da ferida é protegida por compressas sendo colocada uma contenção elástica que deverá ser mantida até á remoção do material  de sutura (cerca de 12 a 14 dias após a cirurgia)

Importante a elevação da mão nos primeiros dias pós cirurgia, mobilização precoce dos dedos e o uso da mão (comer, conduzir, escrever por exemplo), para evitar a dor, o edema e a rigidez dos dedos (frequentes no pós operatório imediato), devendo ser evitadas actividades que causem desconforto importante.

È frequente a persistência de algum desconforto à volta da cicatriz durante vários meses após a cirurgia bem como dificuldade na preensão forçada e hiperpressão na palma da mão.

Actividades manuais intensas não terão muitas vezes condições para ser retomadas antes de decorridos 60 dias após a cirurgia.

Habitualmente os sintomas melhoram com a cirurgia, podendo a recuperação não ser completa (principalmente nos casos mais graves e de evolução prolongada).

Complicações

Considerada habitualmente como uma cirurgia menor e simples, talvez por isso a taxa de complicação não seja de todo compatível com essa ideia, chegando a atingir em alguns estudos 25%.

Entre as complicações mais frequentes destacam-se:

  • Hemorragia
  • Descompressão insuficiente
  • Infecção
  • Lesão nervosa
  • Cicatriz dolorosa
  • Rigidez digital
  • CRPS
  • Recidiva

Poderá ser necessária cirurgia adicional para tratamento de eventuais complicações.


Mais informações em aaos.org


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